quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Papo de SUS

Som ambiente. Sala de espera de uma unidade do SUS. Duas senhoras idosas, simpes, sotaque interiorano conversando.

- Pois é o que estou dizendo pra senhora, D. Josefa. Paqueles cafundó é que eu não volto mais. Deus me livre e guarde de ir de novo pra aquele matagal...

- A senhora tá mais do que certa, D. Zenóbia! Interior não é lugar de gente. Só mato, bicho, doença, Deus que me livre e guarde...

- Meu marido vive me enchendo as paciência, querendo voltar pra lá, que ele não tem jeito de se acostumar aqui na cidade grande. Eu finjo que nem é comigo, tá é doido...

- Comigo é mais ou menos a mesma coisa, só que da parte dos filhos, né? Falam que a vida do campo é muito melhor, que a gente vive com mais saúde e mais sossêgo...

- Ah, não! A começar daqueles brejo, tudo cheio de cobra e sapo, Ave Maria! Chega de noite vem tudo pulando pra dentro de casa, nas pernas da gente...

- E as muriçoca, então? Quando vai escurecendo é aquele inferno, a gente que não trata de fechar tudo quanto é porta e janela pra ver se consegue dormir de noite...

- Inda mais agora, com essas praga de dengue. Minha comadre que ainda mora no interior, a D. Zabé, ficou viúva, acredita? Só por causa de um pernilongo que picou o marido dela. Ficou bem uns vinte dias sofrendo, o coitado. Um febrão danado, não teve nada que desse jeito, até que começou a verter sangue pelas venta, vomitando e ó, bateu com as caçuleta...

- Pra senhora ver, né D. Zenóbia. Tudo por causa de um mardito pernilongo...

- Isso mesmo, D. Josefa, um homem forte, trabalhador, morrer de um jeito assim tão besta...

- É, mas como já dizia os antigo, pra morrer basta tá vivo, né?

- Então, menina, tá sabendo que eu também quase fui pra terra dos pé junto?

- A senhora, D. Zenóbia??? Pois num me diga uma coisa dessas! Como foi que isso se assucedeu, mulher de Deus...

- Pra senhora ver, D. Josefa, e tudo por conta de um outro tipo de bicho lá do interior...

- Verdade? ? ? Mas que raio de bicho foi esse que pegou a senhora de jeito?

- Pois então. Fui visitar o sítio do meu irmão, lá em Santa Cruz do Barro Preto. Ele tem  umas cabecinhas de gado leiteiro, que é de onde ele tira o sustento dele e da família. Também tem uma eguinha alazã, que ele usa pra puxar a carroça que leva o leite todo dia pra cooperativa.

- Sei como é, meu sogro também trabalhou nessa lida a vida inteira...

- Pois então. Nessa de ir ver ele, a mulher e a filha deles tirar leite no curral, não é que eu peguei um carrapato estrela na perna, bem aqui atrás do joelho?

- Hum, hum, hum! Mas a senhora não sentiu nada, na hora que o bicho garrou na vossa perna?

- Nadica de nada, D. Josefa! Pois o bicho é um titiquinho assim, nem dá pra enxergar direito. Só sei que no outro dia começou uma coceira, uma coceira danada e um vermelhidão. Até pensei que fosse alguma formiga que tivesse me ferroado...

- Sei como é que é, coça que é uma praga!...

- Então, minha amiga. Essa coçeira foi aumentando, aumentando, aumentando e num tinha nada que desse jeito. Passei "árco", vinagre, cânfora, até "mér de abeia" com banha de galinha e nada...

- Misericórdia! Eu calculo o seu desespero, D. Zenóbia...

- Era dia e noite, nem meu serviço de casa dava pra fazer direito. Começei a ter uma febre que não passava, suava frio, tinha uma tremedeira, deu até íngua na minha perna...

- Coitada! E como a senhora resolveu esse transtorno, D. Zenóbia?

- Pois então, D. Josefa. Meu filho teve que me buscar em casa e levar pro Hospital do Tocura. Tive que ficar internada cinco dias, a senhora acredita? O médico disse que era uma febre de carrapato estrela, se não trata logo pode até matar...

- Deus o livre e guarde! Ainda bem que a senhora conseguiu se tratar em tempo, né?

- Graças a Deus! Por isso que pra mim chega de mato, Cruz Credo! Êpa, olha lá, tão chamando o meu nome. Fica com Deus, viu D. Josefa? Vai lá em casa, a gente bate um bolinho pra comer com café coado na hora...

- Vou sim, D. Zenóbia. E vou cedo, porque quando a gente se encontra e garra a prosear o tempo passa que a gente nem vê, né mesmo?

- Até mais ver, dá lembrança pro Seu Manézinho, faz tempo que não vejo ele...

- Dou sim, inté mais, D. Zenóbia...

Voz da recepcionista, carregada de impaciência, ecoa o chamado pelo corredor da unidade:


- Zenóbia Selofrênia! Não tá escutando, não? Terceira porta à direita, consultório cinco...

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